“Bolsonaro precisa de algum movimento pra se justificar no poder”, diz pesquisador

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Lideranças políticas e um analista ouvidos pelo Brasil de Fato avaliam que a postura do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no pronunciamento feito na noite de terça-feira (24) em cadeia nacional seria não só um aceno aos interesses de grandes empresários na manutenção das atividades econômicas mesmo diante do avanço do coronavírus no país, mas também uma resposta à baixa que vem sendo registrada entre seus apoios.

Em fala na manhã desta quarta-feira (25) na porta do Palácio da Alvorada, Bolsonaro manteve o discurso feito no pronunciamento anterior e afirmou que a orientação em relação ao enfrentamento da pandemia será “vertical daqui pra frente” em referência ao diálogo entre o Planalto e Ministério da Saúde.

“A orientação vai ser o vertical daqui para frente. Vou conversar com ele [ministro da Saúde, Henrique Mandetta] e tomar a decisão. Não escreva que já decidi, não. Vou conversar com Mandetta”, disse aos jornalistas.

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Na manifestação feita pelo presidente na terça-feira, que foi ao ar em emissoras de rádio e TV, Bolsonaro contrariou as recomendações de isolamento e confinamento das autoridades de saúde sobre o novo coronavírus, incluindo as do próprio ministro da Saúde.

Também qualificou a doença como “gripezinha” e atacou os governadores e a imprensa pelo tratamento que vem sendo dado ao caso. A postura atraiu críticas de diferentes lados, abrangendo até mesmo alguns setores ou aliados mais conservadores.

“Bolsonaro está falando para setores econômicos combalidos, que estão se sentindo prejudicados. Teme que os efeitos da recessão econômica sepultem ainda mais o capital político que derrete a cada dia. Não quer parar, mesmo que isso custe milhares de vítimas. E a popularidade cai porque a população percebe a incapacidade dele de liderar saídas para o país em um dos momentos mais difíceis da nossa história”, analisa a líder da bancada do PCdoB na Câmara dos Deputados, Perpétua Almeida (AC).

Para o presidente nacional do Psol, Juliano Medeiros, a conduta do chefe do Executivo seria uma aposta articulada para promover uma autoblindagem diante das críticas ainda mais contundentes que podem surgir contra o governo em meio às projeções futuras de piora econômica crescente, o que deve trazer consigo índices de desemprego mais alarmantes.

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Uma pesquisa Datafolha publicada na terça-feira (24) mostra, por exemplo, que 79% dos brasileiros acreditam que a economia será bastante impactada pela crise e 50% projetam que os prejuízos serão sentidos por muito tempo.

“Essa aposta dele tem a ver com uma ideia de que a pandemia pode não ser tão grave no Brasil e que, na verdade, os impactos que vão ser mais sentidos serão os de natureza econômica e, portanto, que se opor às medidas mais restritivas dá ao Bolsonaro um discurso que, lá na frente, ele pode usar a favor dele pra dizer que quem quebrou a economia foram os governadores, a mídia, a oposição”, analisa o dirigente.

Ao fazer a mesma conexão, o cientista político Leonel Cupertino ressalta que Bolsonaro estaria se movendo rumo às eleições presidenciais de 2022. Com a popularidade desgastada em meio à crise econômica e política, que se agrava diante da pandemia, o presidente estaria calculando os passos e os riscos diante do acúmulo de problemas.

 “O medo maior dele é de a crise econômica atrapalhar a sua reeleição. É nisso que ele pensa e é contra isso que ele está lutando. Então, ele precisa, de alguma maneira, culpar algo ou alguém ou, pelo menos, não tendo essa capacidade, manter minimamente a sua tropa mobilizada, com frases de efeitos, com ações que beiram o autoritarismo”, exemplifica.   

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Para Cupertino, o comportamento do presidente precisa ser analisado à luz de fatos anteriores ao pronunciamento. Ele destaca a relação de dependência que Bolsonaro tem alimentado com o grupo de tendência autoritária que foi às ruas no último dia 15 para pedir o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF), além de um retorno ao regime ditatorial.

O cientista político chama atenção ainda para a crescente perda de apoio do chefe do Executivo mesmo entre eleitores e grupos políticos anteriormente simpáticos ao governo.

“Ele vem perdendo apoio e não digo nem o número de seguidores, mas a simpatia do povo, até mesmo aqueles que votaram nele, diante de uma enxurrada de frases e ações inconsequentes e irresponsáveis dos últimos tempos. Feito isso, como o Bolsonaro funciona? Através do caos. Ele precisa de algum movimento pra se justificar no poder”, analisa o cientista, acrescentando que, a partir disso, o presidente elege diferentes inimigos, como o ex-presidente Lula, o PT e a imprensa, para fortalecer antagonismos e buscar um crescimento em sua popularidade.

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No que se refere à imprensa, por exemplo, Bolsonaro reforçou, na terça-feira (24) à noite, o discurso de que os jornais estariam promovendo o que considera uma “histeria” em torno do problema causado pelo coronavírus. Diante disso, atraiu críticas de entidades ligadas a jornalistas e veículos de imprensa, além de outros atores políticos.

Ministro

A relação entre o presidente da República e o ministro da Saúde também é vista como ponto de conflito nesse cenário. A pesquisa Datafolha mostrou, por exemplo, que apenas 35% das pessoas entrevistadas consideram a atuação de Bolsonaro na crise como “ótima” ou “boa”, enquanto 33% avaliam como “péssima”, outros 26% acham “regular” e 5% não sabem opinar.

Já a atuação do Ministério da Saúde foi bem avaliada por 55% das pessoas, que qualificaram a conduta da pasta como “ótima” ou “boa”. Entre o restante dos entrevistados, 31% consideraram como “regular”, 12% como “péssimo” e 2% não souberam responder.

Nos bastidores da política em Brasília, o entendimento de que Bolsonaro estaria incomodado com o protagonismo de ministro da Saúde neste momento é predominante entre parlamentares e analistas políticos.

 “Ele sente um ciúme do ministro, que está na linha de frente e recebeu elogios suprapartidários, e o Mandetta sabe que, neste momento, precisa manter a serenidade e o silêncio político pra se manter no cargo. E também seria muito ruim, pra sociedade brasileira, se o ministro se afastasse agora, em meio a uma crise aguda. Mas Bolsonaro não tem compromisso em mantê-lo no cargo porque não tem compromisso com nada além da sua reeleição”, avalia Cupertino, ao citar as especulações sobre uma eventual demissão de Mandetta. 

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Ao desenvolver um raciocínio semelhante, o presidente do Psol compara a relação entre Bolsonaro e Mandetta com o tratamento dado pelo chefe do Executivo ao ministro da Justiça, Sérgio Moro, com quem o presidente mantém um relacionamento marcado por faíscas e competições.

“Acho que é uma relação contraditória, porque o ministro é uma reserva de credibilidade no governo, 56% aprovam o trabalho dele, e o Bolsonaro não gosta de quem tem protagonismo, o mesmo que ocorre com o Moro. Por este ser ainda bem avaliado por alguns grupos, isso traz ao Bolsonaro alguma segurança. Isso é uma característica da personalidade do presidente e é algo que vai estar presente sempre que algum ministro se tornar uma reserva de credibilidade dentro da gestão”, avalia.