Artigo | O maior desafio dos setores progressistas desde o fim dos anos 1990

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Em condições normais de temperatura e pressão teríamos meses para amadurecer as ideias e travar longos debates. Mas a conjuntura adentrou em um estágio distinto, que exige movimentos superiores por parte de todos os setores da política. Especialmente daqueles que propõem mudanças profundas.

Para facilitar optamos por dividir em quatro blocos. São ideias para o debate.

1. A instabilidade do governo

A instabilidade e crise do governo é uma realidade inconteste. Ela é a base de dois movimentos: a oposição e as propostas de impeachment e o centrão com ampla e irrestrita negociata. Essa instabilidade não é garantia de qualquer desmonte, queda ou algo do tipo, mas permite que as forças se apresentem com maior clareza.

Nessa cena, o centrão ocupa todo o destaque com sua tradicional elasticidade para franquear apoio. Qualquer crise de governo (e governabilidade) é maior dependência desse setor. E maior dependência é negociação. E não faltam espaços para acolher essa negociação.

E isso não é novidade – governo instável negociando e o centrão ávido por ofertas. Essa crise animou os setores de oposição, mas não há qualquer correlação de forças para um impeachment. Isso não deve ser o fator definitivo para a adoção dessa bandeira, mas lidemos com a realidade. Isso fará a pressão recair sobre o Maia, que certamente deverá segurar os pedidos até que haja um cenário favorável a ele, e isso não é agora. Agora ele está com o passe hiper valorizado e com a melhor condição para negociar.

Nesse campo não teremos vida fácil. Os blocos na Câmara: 25% é oposição; centrão puro tem quase 200; Maia influencia aproximadamente 113 (35%) com DEM, PSDB, MDB, Cidadania e Solidariedade; e Bolsonarismo tem 41 (Seria 53, mas 12 estão suspensos pelo PSL).

Ou seja para passar um impeachment teríamos que contar com todos os votos influenciados pelo Maia, além da oposição, do Novo, Patriota e PV. E ainda precisaríamos de outros 80 votos do centrão. Que são os negociadores e ávidos por espaço e orçamento.

Bolsonaro terá pela frente um duplo desafio: barrar o impeachment e conseguir emplacar uma chapa para a presidência da Câmara e Senado. E hoje não tem força para vencer.

Tudo indica que Maia terá muito espaço para operar – com a esquerda e a direita dependendo da força dele, além da possibilidade de disputar o centrão com mais forças. Deve vencer a batalha pela presidência, exceto se cometer um grande erro. Um dos possíveis erros (do ponto de vista do Maia) seria colar sua posição com o bloco de oposição, o que não deve ocorrer.

2. O debate sobre as alianças e as frentes

As diatribes do governo, especialmente seus erros graves, as defecções de aliados, centralmente o Moro, a gravidade da pandemia e a urgência da adoção de medidas políticas, econômicas, sanitárias e outros para enfrentá-las nos levaram a tratar tudo como uma guerra. Não é impreciso o termo para a situação, mas recomenda-se o uso de outros.
Fato é que há um deslocamento político em cinco temas e são concomitantes:

    • Bolsonaro caminha para o isolamento institucional, que já era uma tendência e se tornou um processo em curso, obviamente inconcluso.
    • Perda de apoio de setores bolsonaristas, em parte pelos grandes erros ao tratar da covid-19, em parte pelo isolamento e defecções. Essa perda ocorre em todos os segmentos, exceto o de baixa renda, que pode ter absorvido o discurso (cloroquina, preocupação com emprego e centralmente o auxílio emergencial) como obras dele.
    • A maior presença de setores radicalizados de sua base, especialmente as caravanas, atos aos domingos e acampamento amalucado em Brasília.
    • Uma maior desenvoltura para costura e composição na bacia das almas do centrão.
    • A centralidade absoluta em arregimentar apoio de setores dentro das Forças Armadas e abandonar nomes com brilho próprio, optando por figuras apagadas e obedientes. A exemplo de todos os fascistas, que preferem a obediência a inteligência-autonomia.

Essa combinação deve ser cotejada com o quadro de crise em ritmo de pandemia: profunda, cadenciada, em intensidade crescente, de impacto nacional e com alcance total da população dos setores médios e classes populares.

Nesse quadro, a derrota do Bolsonaro ganha centralidade inédita e sensibiliza amplos setores. Para essa centralidade a esquerda e seus aliados não são suficiente. Há mais setores da sociedade – entidades, intelectuais, figuras públicas, partidos e organizações com adesão ao tema do impeachment ou cassação da chapa.

Porém, predomina na esquerda um debate frágil sobre esse processo. Ora dando conteúdos, significados e consequências muito variadas ao debate sobre a amplitude da aliança diante desse quadro; ora tratando o processo dentro de uma normalidade em que o quadro em alterações importantes não encontram um reflexo nas iniciativas das forças progressistas, ou, trocando em miúdos, as mudanças qualitativas no quadro político não resultaram em alterações da iniciativa política, o que é, de per si, o tema que deveria tomar muito da nossa energia e preocupação. A esquerda precisa estar à altura de mudanças como essas e responder a emergência de iniciativas conjugando dois eixos: a unidade da esquerda e a construção de uma aliança ampla para derrotar o projeto neofascista.

3. A abertura e flexibilização do isolamento

Bolsonaro cometeu seu maior erro político: colocar-se como relativizador/piadista do tema que apavora metade do Brasil. Cada cadáver será um fator contrário a ele.

Mas o governo conseguiu deslocar dois debates importantes: o sobre o tratamento, em que de um lado estão os defensores da cloroquina e do outro os que defendem o tratamento atual com suas mais de 21 mil mortos; o outro debate é daqueles que defendem a situação atual contra o governo defendendo o emprego e a necessidade de adoção de medidas combinando rigor e flexibilidade.

Para a esquerda esses dois debates estão no campo da loucura, do absurdo, das bobagens, negacionismo, etc. Mas a questão nos parece mais complexa do que isso.

Ao ter uma proposta de medicação, ainda que simplifique tudo, passe por cima da comprovação científica, exponha as pessoas a grandes riscos, ele captura a ideia de que propõe uma solução. Simples, direta e barata. Não podemos menosprezar o impacto disso nas camadas mais pobres e setores da baixa classe média (impreciso, mas adoto por falta de outro).

Outro fato também não pode ser menosprezado, já que é um dos temas de grande preocupação, é o de que o governo conseguiu emplacar a ideia de que já está ajudando e se sacrificando, e essa discussão é parte sobre o presente e muito sobre a disputa política e ideológica das responsabilidades pela crise após a normalização das coisas (mesmo que isso seja paulatina, com idas e vindas, mas depois do pavor atual passar).

Em ambas o governo ficará com o discurso de ter proposto uma medicação e também cuidar do emprego, renda etc. Em suma: com os dois temas do povão (vida e renda). Ainda que tenhamos conseguido enfrentar o discurso anti-Estado e neoliberalismo, mas isso foi capturado como medidas de governo – auxílio, apoio ao mercado com a redução da jornada ou suspensão dos contratos, etc.

4. A grande mídia, a busca por notícias e a dispersão dos veículos progressistas

O isolamento, a angústia e o quadro de crise levaram a um maior acesso a notícias. A Globo largou na frente ampliando em quase 2 horas o tempo do jornalismo na programação e a CNN Brasil chegou com tudo – debate, ouvindo a oposição e bons programas (destaque para o programa do Willian Waak à noite e o Grande Debate no horário do JN).

Os jornais da mídia progressista seguem fragmentados e poucas iniciativas de unificação de programações. A soma dos veículos não alcançam uma décima parte da sociedade. Ou seja, nossa disputa está em um quadro duríssimo, ainda que tenhamos crescido em volume, mas é um crescimento geral do “consumo” de jornalismo.

Sem iniciativas para disputar com maior força a opinião pública a situação para os setores progressistas não deverá ser fácil.

*Ronaldo Pagotto é advogado e militante da Consulta Popular.