‘A ocultação de cadáveres não serve neste momento’, diz presidente do Conass sobre mudança em dados de Covid-19

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Representante dos secretários estaduais de saúde afirma que mudança é “leviana” e “chega à beira do criminoso”. O presidente do Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass), Alberto Beltrame, disse nesta terça-feira (9) em entrevista à GloboNews que a mudança na forma de divulgação de casos confirmados e mortes por coronavírus no Brasil é “leviana” e “chega à beira do criminoso”. Para Beltrame, “a ocultação de cadáveres não serve neste momento”.
Na sexta-feira (5), o portal do governo federal que traz os números da pandemia no Brasil saiu do ar. O Ministério da Saúde informou que mudaria a forma de divulgação dos indicadores do coronavírus. Na prática, o governo federal passou a deixar de apresentar dados consolidados, e divulga apenas as mortes ocorridas nas últimas 24h. Nesta segunda (8), o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que o Ministério da Saúde retome a divulgação dos dados acumulados.
Em resposta à decisão do governo Jair Bolsonaro, os veículos G1, O Globo, Extra, O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo e UOL decidiram formar uma parceria e trabalhar de forma colaborativa para buscar as informações necessárias nos 26 estados e no Distrito Federal. De acordo com o balanço desta terça, até as 8h, o Brasil tinha 711.696 casos confirmados e 37.359 mortes por coronavírus.
O Conass também passou a divulgar os dados consolidados dos estados. Beltrame, que atua como secretário de saúde do Pará, afirmou nesta terça à GloboNews que os dados consolidados ajudam a nortear as ações dos governos e são levados em conta para a tomada de decisões dos gestores.
“Não é aceitável ocultar cadáver. Se eu não tenho dado, faço voo às cegas, não consigo ter noção do momento em que estou da pandemia, se estou em curva ascendente, plato ou queda”, disse Beltrame. “Dado isolado é inútil para a população. Não adianta informar os mortos se não tem como comparar”, reforçou. “A ocultação de cadáveres não serve neste momento.”
O presidente do Conass cobrou transparência do governo federal, e reforçou que o conselho continuará divulgando dados consolidados das secretarias estaduais de saúde, uma forma de suprir a ausência de informação do governo federal.
“A sociedade brasileira não pode ser ludibriada ou colocada à margem dessa informação porque ela é relevante demais. Não é possível lidar de forma tão leviana com dado tão relevante.”
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Repúdio
Beltrame voltou a criticar a fala do empresário Carlos Wizard, que chegou a ser cotado para ser Ministro da Saúde após a saída de Nelson Teich, em maio, e vinha atuando como “conselheiro” do ministro interino Eduardo Pazuello. Na sexta (5), Wizard acusou os estados de inflarem os números de Covid-19 para terem mais recursos do governo federal. A declaração gerou reações negativas fortes ao longo de todo o fim de semana.
“A declaração do Wizard é indesculpável. Nós não vamos admitir qualquer lançamento de suspeição sobre a forma como nós temos informado a sociedade. Afirmei em nota que nós não somos mercadores da morte, somos defensores da saúde e da vida,” disse à GloboNews.
“Ele [Wizard] cria confusão desnecessária, desserviço à saúde pública, joga suspeição sobre médicos, secretários, prefeitos e governadores, e isso é motivo de repúdio e asco, é a palavra correta, nós não aceitaremos isso e fazemos apelo com toda clareza que ministério tenha bom senso de voltar atrás e passar informação correta”, afirmou Beltrame.
Questionado sobre se entraria com alguma ação judicial contra a fala do empresário, Beltrame afirmou que “não tem como antecipar”.
“Repudiamos as afirmações do senhor Carlos Wizard. Ele fez declaração ideológica, enviesada. Quais são as medidas [que o Conass irá tomar], não tenho como antecipar. Agora, que o Conass não aceitará isso, não aceitará”, declarou.
Beltrame defendeu o Sistema Único de Saúde (SUS) e afirmou que a indústria nacional não pode ficar refém da compra de insumos e produtos de outros países. “Nós não podemos ficar dependentes de países estrangeiros, colocando indústria em espiral de tributos”, afirmou, citando que a carga tributária do setor chega a 27%.
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