‘É terrível ser velho na Suécia’: 88% dos idosos com Covid-19 morreram sem cuidados hospitalares

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Único país nórdico a não adotar o isolamento horizontal, a Suécia também lidera o número de mortos pelo coronavírus na região. ESTOCOLMO – Vista aérea mostra o Kungstradgarden em Estocolmo, na Suécia
Jonathan Nackstrand/AFP
Beirit, 75 anos, tem uma longa carreira como professora de música. Como muitos idosos na Suécia, ela segue as recomendações do governo para limitar seus passeios e contatos. Mas isso não a impede de ser muito crítica às decisões do país para administrar a crise da Covid-19.
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“É terrível ser velho na Suécia. Nos dizem que a comunidade cuida dos idosos, mas isso é uma grande mentira. Nas creches, você precisa de um diploma para trabalhar com crianças, mas para cuidar de idosos, pode ser qualquer pessoa da rua. E eles não mandam os idosos para o hospital, porque haveria muitos, então os deixam morrer em suas camas, sem nenhuma ajuda,” lamenta.
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A decisão de ampliar a proibição de visitas em casas de repouso mostrou mais uma vez o impacto do coronavírus sobre os idosos na Suécia. Mais da metade das vítimas da Covid-19 no país viviam em asilos, como em muitos países europeus. O governo fez da proteção deles uma prioridade. Mas isso não impediu o massacre: 88% das mortes de coronavírus entre os suecos eram de pessoas com mais de 70 anos.
Muitas famílias dizem que centenas de mortes poderiam ter sido evitadas se esses pacientes idosos tivessem sido hospitalizados, em vez de serem tratados com morfina. É também o que pensa Yngve Gustafson, professor de geriatria de Umeå, conhecido pelos suecos por ter participado de vários programas de televisão.
“Em Estocolmo, 88% dos pacientes em casas de repouso morreram nas casas de repouso, apenas 12% foram hospitalizados. O problema remonta à década de 1990, quando começamos a analisar a relação custo-benefício de certos tratamentos para certos grupos de pacientes. Mais idosos teriam sobrevivido se lhes fossem oferecidos cuidados hospitalares”, diz Gustafson.
Modelo de isolamento vertical
Único país nórdico a não adotar o isolamento horizontal, a Suécia também lidera o número de mortos pelo coronavírus na região. Restaurantes, lojas, shoppings, creches e escolas do ensino fundamental continuaram abertos durante a pandemia, embora fosse notável a redução do movimento nas ruas.
A estratégia dissonante adotada pelo país tem sido citada por partidários do isolamento vertical, inclusive no Brasil, como um modelo a ser seguido. Porém, a maior parte da população segue as orientações do governo de manter distanciamento social, e o isolamento dos idosos é particularmente recomendado.
Europeus devem evitar a Suécia no verão
Relatório recente do Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC) aponta que, enquanto quase todos os países europeus parecem “ter controlado” a circulação do coronavírus, uma destinação é claramente desaconselhada pela entidade nessas férias: a Suécia.
A ECDC atribui uma “nota corona” a cada país, de acordo com a evolução do vírus. Para marcar mais pontos, o país deve contar menos de 20 contaminações por 100.000 habitantes nas últimas duas semanas. Porém, algumas regiões da Suécia têm mais de 120 casos/100.000 habitantes.
Lucro X idosos
Após a crise do coronavírus, a Suécia terá de enfrentar outra discussão sanitária que apareceu na epidemia: as condições de trabalho em lares de idosos, grande parte dos quais são administrados por grupos privados – mais do que em outros países escandinavos.
“O que significa buscar o lucro ao cuidar de um lar de idosos?” Eu acho que vai ser um debate importante na Suécia depois da crise”, reconheceu a ministra das Finanças, Magdalena Andersson.
Uma investigação foi aberta pela Inspetoria de Saúde da Suécia sobre o trabalho em lares de idosos, bem como para apurar a seleção de pacientes em hospitais suecos.