Pandemia sem controle nos EUA

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Trajetória ascendente do novo coronavírus, prognóstico de 100 mil casos diários e veto de entrada de americanos na União Europeia contrastam com insistência do governo Trump de que doença foi dominada. A médica residente Kimberly Olivares colhe material de paciente para teste de Covid-19 no United Medical Center, em Houston, no Texas, no domingo (28)
AP Photo/David J. Phillip
De dentro da Casa Branca, saem duas versões diferentes para a atual realidade da pandemia do novo coronavírus nos EUA. Desde a semana passada, o país atingiu a marca de 40 mil casos diários — a maior desde abril — e fez 17 estados suspenderem ou reverterem as medidas de flexibilização tomadas na pressa de voltar à normalidade.
De um lado, o prognóstico aterrador traçado por Anthony Fauci, seu mais respeitado epidemiologista, de que o país está na direção errada e, se não mudar o curso, chegará a 100 mil infectados por dia. De outro, Kayleigh McEnany, a porta-voz do presidente Trump, minimiza a onda, classificando-a como “brasas que precisam ser apagadas” e delega o uso de máscaras faciais a uma escolha pessoal.
Em quem acreditar? “Basta olhar os números. As pessoas estão adotando a abordagem do tudo ou nada, quando se trata de distanciamento social e uso de máscaras”, constatou o experiente Fauci, há mais de quatro décadas atuando como o principal especialista em doenças infecciosas da Casa Branca, numa audiência no Senado americano nesta terça-feira (30).
A União Europeia parece ter avalizado o panorama exposto pelo ressurgimento da doença nos EUA, em um segundo pico, e vetou a entrada dos passageiros provenientes do país, que já registrou 2,6 milhões de infectados e 126 mil mortos.
Em trajetória ascendente, o retrato do descontrole da doença numa superpotência como os EUA é um alerta para o Brasil, também excluído da lista da União Europeia. Especialistas de saúde que estiveram no Senado nesta terça-feira atribuíram a propagação da doença à pressa de alguns estados para reabrir a economia, sem cumprir o cronograma elaborado pela força-tarefa do novo coronavírus.
Texas, Flórida e Califórnia concentram 50% do crescimento de novos casos de Covid-19 no território americano. Foram seguidos por outros em medidas de recuo, como fechamento de bares, cinemas, academias de ginástica ou parques aquáticos e proibição de bebidas alcoólicas.
Anthony Fauci, médico conselheiro da Casa Branca, usa máscara ao chegar para dar declarações ao Congresso dos EUA nesta terça-feira (30)
Al Drago/Pool via Reuters
“Ou você vê pessoas confinadas ou você vê pessoas em bares, sem máscaras, sem evitar multidões, sem prestar atenção ao distanciamento físico”, resumiu Fauci. Aí entra outro agravante. Em dez dos 15 estados que enfrentam uma segunda onda sem ter encerrado a primeira, o uso de máscaras não é obrigatório.
Todos são governados por republicanos, que seguem a cartilha do presidente Trump, o primeiro a recusar-se a portar a proteção facial em público. Robert Redfield, diretor dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), indicou o uso universal de máscara como a “coisa mais importante a fazer.”
Num duro pronunciamento, o oponente de Trump na corrida à Casa Branca apontou as falhas do presidente para limitar a ação do vírus e disse que faria tudo diferente, a começar por testes e tratamentos gratuitos para todos.
O ex-vice-presidente Joe Biden associou o uso de máscaras a patriotismo: “Todo mundo precisa usar uma máscara em público, ponto final. Presidente, não é sobre você, é sobre a saúde e o bem-estar do público americano.” Mais didático, impossível.
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