Por que esta crise é diferente de todas as outras? Economistas avaliam impactos da pandemia e suas lições sobre dinheiro

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Cofre de porquinho usando uma máscara branca

SÃO PAULO – Passados quase cinco meses, desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou a pandemia do coronavírus, a insegurança financeira e a incerteza sobre uma retomada são temas que seguem no radar do brasileiro. E não é para menos: economistas avaliam que, de fato, essa crise é um fenômeno distinto de tudo o que já enfrentamos.

Simão Silber, professor e doutor da faculdade de economia da Universidade de São Paulo (FEA-USP), resume da seguinte forma: o vírus fez o mundo parar e deu início a crises de natureza econômica, social, financeira e de saúde de proporções históricas.

“Desde a Gripe Espanhola, 102 anos atrás, não vimos nada similar. O mais peculiar em uma crise gerada por uma zoonose é que ela não surge por si mesma, não é uma crise financeira. Não é resultado de uma bolha da Bolsa ou excesso de produção, é simplesmente um evento externo à dinâmica da economia, que não permite um culpado”, diz Silber.

Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central e colunista do InfoMoney, acrescenta outra particularidade da atual crise: “A capacidade de oferta foi afetada. Desta vez não se trata de um choque gerado apenas pela demanda, com disfunção no sistema de crédito, encolhimento no consumo e investimentos postergados”.

Trata-se, então, de uma crise com multiplicidade de choques negativos, tanto pelo lado da demanda, quanto pelo lado da oferta. O dilema é que as medidas necessárias para desacelerar a taxa de contágio comprometem, inevitavelmente, as atividades que fariam a economia engrenar.

“Em momentos como este, os mercados ficam disfuncionais. E o governo tem que assumir mais responsabilidades. Em muitos casos, as pessoas não puderam trabalhar por risco de vida. Só que se não trabalham, muitos perdem emprego, ficam sem renda, deixam de consumir. Sem pessoas comprando, não há produção, a empresa despede e o consumo cai ainda mais. E o looping continua”, explica Silber.

Para Schwartsman, temos um grau de incerteza nunca antes observado. “E não passamos por poucas crises. Em 2008, o sistema bancário foi afetado, mas existiam instrumentos conhecidos para lidar com a situação. Na crise sanitária atual, esperamos por uma vacina, que ainda não chegou. Não sabemos como lidar com algo tão atípico e de escala global”, explica.

Impactos

É verdade que já há um ensaio de retomada, com planos de reabertura em curso em várias cidades no país, e pessoas retornando ao trabalho – 1,3 milhão de pessoas voltaram às atividades na terceira semana de junho, segundo os dados mais recentes do IBGE. Ainda assim, o Brasil segue em segundo em números de casos confirmados da doença no mundo, só atrás dos Estados Unidos, e a possibilidade da volta de medidas mais restritivas não pode ser descartada.

Os reflexos da pandemia são significativos: segundo o IBGE, a taxa de desocupação ficou em 12,3% na primeira semana de julho, o equivalente a 11,5 milhões de pessoas sem emprego. O número representa um recuo frente à semana anterior, quando a taxa estava em 13,1% e o país tinha 12,4 milhões desempregados.

Porém, a queda na taxa não permite concluir que houve uma melhora do mercado de trabalho porque outros dados devem ser observados em conjunto. No mesmo período, a parcela de brasileiros fora da força de trabalho, que não estavam trabalhando, nem procurando trabalho subiu de 75,1 milhões para 76,8 milhões. E 7,1 milhões de pessoas que foram afastadas do trabalho devido ao isolamento social deixaram de receber remuneração.

Do lado das empresas, considerando as micro e pequenas empresas (MPEs), 32,9% delas encerraram as atividades na primeira quinzena de junho, segundo os dados mais recentes do IBGE.

Schwartsman afirma que a situação poderia ser menos dramática se as políticas de combate à pandemia fossem mais articuladas. “Nitidamente faltou coordenação entre as ações. Saímos atirando em todas as direções. Precisávamos manter o nível de renda das pessoas, e o auxílio emergencial foi uma saída. Aparentemente funcionou bem, mas há fraudes e muita gente usando o benefício sem precisar“, diz.

Os programas de crédito foram a saída encontrada para as empresas, mas eles se revelaram pouco efetivos, já que o dinheiro não está chegando nos pequenos empresários. “O que vai acontecer é que, uma vez passada a pandemia, bares, restaurantes, padarias, salões de beleza, não vão conseguir retomar. Não perde só o empreendedor, mas os funcionários, fornecedores, e no limite, quem consome”, conclui.

Ele ressalta que a velocidade de recuperação econômica está intimamente ligada com a desaceleração da pandemia. “Enquanto isso, não dá para manter uma renda emergencial para milhões de brasileiros para sempre. O orçamento público não aguenta”, afirma.

A projeção da dívida bruta do governo geral já subiu de 77,9% para 98,2% do PIB neste ano, segundo o Ministério da Economia, e o rombo das contas públicas deve chegar a R$ 850 bilhões, o maior déficit da história do país.

Considerando o panorama atual, Schwartsman está pessimista. “Minha impressão é que já perdemos o bonde. Perdemos a oportunidade de preservar as empresas e não tem muito mais o que fazer. Não está todo mundo empurrando na mesma direção. O que vamos fazer dado o que aconteceu? Como vamos responder? Essas perguntas são significativas agora”, diz.

Silber concorda que a situação é grave, mas é mais otimista sobre o futuro. “O processo de retomada nacional envolve as pessoas, produtoras e consumidoras, e as empresas, que contratam e produzem. De fato, se não tiver isso, a economia vai ser destruída. Mas no meio do caminho teremos perdas, estamos em uma guerra contra o vírus”.

Aprendizados

Apesar de toda a complexidade, esses cenários costumam trazer os maiores aprendizados sobre dinheiro. “Nos últimos 12 anos passamos por três grandes crises e todo mundo sofreu. Esses períodos deveriam ser um estímulo para uma reflexão sobre o elo que se quer estabelecer com o dinheiro, que pode ser bom ou conflituoso”, explica Jackson Bittencourt, professor de economia da PUC-PR.

Mas quais são exatamente as reflexões que podem ser feitas agora? Reunimos a seguir algumas das principais sugestões dos especialistas.

1. Repense o consumo

Rebeca Toyama, especialista em desenvolvimento humano e liderança, acredita que uma das principais lições é a mudança na forma como as pessoas se relacionam com tudo à sua volta: consigo mesmas, com dinheiro, com as pessoas, com o tempo. “E agora refletir como agir daqui para frente vai ser essencial para que os mesmos erros não sejam repetidos na próxima crise”, diz.

Para ela, o consumo é um dos pilares desse raciocínio. “Começamos a perceber que muitos itens não são mais tão necessários quanto antes. Podemos viver sem aquela roupa nova, sem uma extravagância, até sem um carro. O segredo é entender o impacto nas despesas durante a crise. Gastamos mais do que precisamos? Em muitos casos, sim”, explica.

Marcia Dessem, planejadora financeira, CFP, e membro do Conselho de Administração da Planejar, complementa. “Não é raro que as pessoas, em situações de estresse, recorram ao consumo para aliviar tensões ou compensar frustrações. Em muitos casos, as compras são válvulas de escape. E essa é uma das armadilhas desta crise. Não cultive esse hábito”, orienta.

2. Monetize seu talento

Outro aprendizado está relacionado à vida profissional e a novas formas de ganhar dinheiro. “Nunca passamos uma fase como esta antes. Pensar na carreira, com tantas mudanças que vêm acontecendo no mercado de trabalho, é crucial. Independentemente da posição, se sua renda foi afetada de alguma maneira, é preciso entender como monetizar seu talento e se sustentar financeiramente”, diz Marcia.

3. Entenda a importância do planejamento

Bittencourt alerta que é preciso aumentar o nível de consciência sobre a importância de se planejar. “Mesmo com a Selic no menor patamar histórico, 2,25% ao ano, juros de empréstimos como cheque especial e rotativo ainda são altíssimos. Não se organizar e precisar usar uma dessas modalidades causa um desequilíbrio orçamentário. Ajustar o volume de receita ao volume de despesa é simples, mas essencial hoje e sempre”, diz o professor da PUC-PR.

Marcia diz que a crise está durando mais tempo do que qualquer um poderia ter previsto. “Apesar das dificuldades, é necessário estabelecer seus limites e suas prioridades para sobreviver financeiramente. É preciso fazer escolhas, que incluem começar ou não a fazer um planejamento, cortar gastos, organizar melhor o fluxo de caixa da casa”, afirma.

Rebeca acrescenta: “É planejar para poder errar e ter a possibilidade de redirecionar a receita e as despesas”.

4. Foco no longo prazo

Bittencourt lembra que a taxa de desemprego, hoje em 12,3%, mais do que dobrou de 2014 para cá, quando fechou o ano em 4,8%. Mudanças estruturais na economia reforçam a importância de o brasileiro trabalhar sua visão de longo prazo.

“A tendência é negativa. E não estamos falando de aposentadoria. Uma visão mais ampla para o segundo semestre deste ano, para o primeiro semestre do ano que vem já é um avanço. Os efeitos serão estendidos e o planejamento financeiro tem que englobar essa ideia. A crise se instala rapidamente, mas nem sempre acaba na mesma velocidade”, avalia.

Letícia Camargo, planejadora financeira, CFP, aponta que o imediatismo é uma característica que acompanha o brasileiro desde o período de alta inflação, a partir de meados da década de 80 e início dos anos 90.

“Só a partir do Plano Real é que conseguimos ver uma inflação mais razoável de dois dígitos no país. As pessoas foram condicionadas a receber e gastar. Quanto mais você recebia, mais você comprava porque a inflação corroía os valores. O planejar era difícil, e temos a herança desse período. Precisamos nos adaptar”, diz Letícia.

5. Reserva de emergência

A reserva de emergência mostrou a importância do seu papel durante a crise e Marcia defende que que será necessário uma mudança de postura mais profunda para que o brasileiro, de forma geral, lide melhor com as finanças. Ela recomenda guardar 10% a 20% das receitas mensalmente para formar essa reserva, que dará liquidez e fôlego em momentos conturbados.

“Existe aquela regra básica de guardar pelo menos três vezes os custos mensais. Estamos terminando o quarto mês de crise. Hoje seria ideal ter seis ou nove meses poupados. Não estamos em uma situação normal, então é sempre bom se preparar para o pior”, diz Marcia.

Segundo a planejadora, as pessoas se dividem em três grupos neste momento: quem não tinha se planejado e está sentindo na pele os efeitos, seja por redução de salário ou desemprego; quem achava estar preparado, mas a magnitude da crise provou que faltou eficiência no planejamento; e uma parcela bem menor que realmente estava preparada e está enfrentando o momento sem grandes traumas.

“Os aprendizados que cada um vai tirar são muito pessoais e a crise ainda está em andamento. Mas temos uma oportunidade contundente de evoluir”, avalia Marcia.

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