“Apagando o incêndio”: como o timing das autoridades ajudou a limitar o estrago da crise de 2008

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SÃO PAULO — A crise do coronavírus é diferente de todas as outras que já tivemos. É uma crise de saúde, ditada no mundo todo pelo compromisso dos governos de seguirem as orientações dos médicos para amenizar a disseminação da Covid-19. Ao mesmo tempo, demanda muito esforço dos bancos centrais para tentar amenizar os efeitos econômicos disso tudo — e é aí que as lições aprendidas no passado importam.

Em 2008 e 2009, a economia mundial chegou à beira do colapso com a crise que surgiu após a quebra do Lehman Brothers, um dos maiores bancos de investimentos dos Estados Unidos. O crédito ficou escasso, os lucros das empresas despencaram, os preços das ações caíram e a taxa de desemprego disparou. O fundo do poço só não demorou mais para chegar porque os formuladores de políticas econômicas agiram na hora certa, precisos como bombeiros.

“Apagando o incêndio”, da Editora Todavia, traz uma breve descrição desse momento crucial da história, narrado por três de seus personagens principais: Ben S. Bernanke, que foi o presidente do Federal Reserve, o banco central americano, Henry M. Paulson Jr., que era secretário do Tesouro de George W. Bush, e Timothy F. Geithner, que era presidente do Fed de Nova York e depois se tornou o sucessor de Paulson na gestão de Barack Obama.

O livro foi lançado no Brasil no mês passado, após enorme sucesso em 2019 nos Estados Unidos. Em alguns trechos os autores chamam atenção mais para a glória de seus acertos e, em outros, gastam bons parágrafos com desculpas sobre como as autoridades não viram — ou fechavam os olhos — que algo podre contaminava o sistema financeiro americano.

Mas o mais interessante é que o livro conta com detalhes o caminho que deu origem à crise, como foi o processo de resgate financeiro pelo governo americano e, principalmente, o alerta de que não estaríamos preparados para uma nova temporada de caos econômico. E ela veio antes do que pensávamos, mas, aparentemente, os bombeiros desta vez também conseguiram agir no momento certo.

Sinais

Segundo os autores, o que aconteceu em 2008 foi um “pânico financeiro clássico” e um dos motivos que fizeram os sinais passarem desapercebidos foi uma certa arrogância por parte das autoridades americanas. “Na época, economistas sérios argumentavam que inovações financeiras, como os derivativos, graças a sua suposta capacidade de diversificar melhor os riscos, tornavam as crises uma coisa do passado”, diz um trecho do livro.

Ainda segundo eles, a conjuntura macroeconômica da época colaborava para esse certo conforto sentido pelas autoridades. “Enquanto todas as crises começam com booms de crédito, nem todos os booms de crédito terminam em crises, e o sistema financeiro parecia mais estável do que nunca nos primeiros anos do século XXI : 2005 foi o primeiro ano sem uma falência bancária nos Estados Unidos desde a Grande Depressão.”

O boom, disseram, estava mascarando alguns graves desafios econômicos de longo prazo para os Estados Unidos — aumento da desigualdade de renda, salários persistentemente estagnados, crescimento lento da produtividade, um declínio preocupante da participação no trabalho de homens em idade ativa —, mas, em geral, a economia americana parecia em boa forma.

“Havia também uma confiança generalizada de que, se a economia tropeçasse, o sistema financeiro seria resiliente. Afinal de contas, ele resistira razoavelmente bem a uma série de recessões modestas e a outros testes nas décadas anteriores, e os bancos pareciam ter muito capital para absorver perdas em caso de recessão.”

Os autores destacaram que a alavancagem do setor financeiro americano, em especial o mercado de hipotecas, pôde florescer graças à burocracia reguladora financeira fragmentada dos EUA. Diferentes títulos com lastro nas mesmas hipotecas foram criados e comercializados por diferentes instituições financeiras, principalmente as de menor porte, fora do alcance do Fed.

“É difícil consertar algo antes que ele quebre”, destacaram os autores. Eles reconheceram algumas falhas, incluindo a declaração precoce de Bernanke que de que os problemas nos empréstimos “subprime” estavam “contidos”. E argumentaram ainda que era impossível ter salvado o Lehman Brothers — mas salvaram outras gigantes depois.

“Todos acreditamos no poder do livre mercado, e todos relutamos em resgatar banqueiros e investidores imprudentes de seus próprios erros. (…) Mas sabíamos que recuar e deixar a natureza seguir seu curso não era uma escolha razoável. A mão invisível do capitalismo não pode deter um colapso financeiro em estado avançado; somente a mão visível do governo pode fazer isso”, afirma o livro.

Nova crise

Como o livro foi lançado nos EUA em 2019 e reembalado neste ano para o seu lançamento no Brasil, os autores falavam de uma possível nova crise que já é a nossa atual realidade. Segundo eles, nós devemos nos preocupar com ela.

Os bancos, eles argumentam, são na verdade menos arriscados do que eram, graças a reformas financeiras que, embora muito aquém do que deveria ter sido feito, levaram a práticas mais seguras. Os autores dizem que, agora, a diferença entre a crise de 2008 e a atual é que os formadores de políticas econômicas estão com ferramentas mais limitadas.

As taxas de juros, por exemplo, já estão muito baixas e não há como cortá-las ainda mais para estimular a economia. Além disso, os autores dizem que o estímulo fiscal seria muito mais difícil de ser mantido, dados os altos níveis de dívida. Mas não há um paralelo para o que já sendo feito: gastos públicos além dos limites, que foram suspensos temporariamente, e injeção de trilhões na economia tanto diretamente para as pessoas físicas quanto para as empresas.

“O esquecimento é nosso inimigo. O atual fardo regulatório não impediu que os bancos desfrutassem de lucros saudáveis ou emprestassem valores recordes a famílias e empresas, mas o setor financeiro está pressionando fortemente por alívio regulatório”, sinalizam os autores.

Eles terminam com um alerta: “o conjunto corrente de restrições ao arsenal da política de emergência é perigoso para os Estados Unidos — e, considerando-se a importância global do sistema financeiro americano e o dólar, é perigoso para o mundo. Podemos fazer melhor, e o que está em jogo é tão grande que até mesmo fazer só um pouquinho melhor pode trazer enormes benefícios em termos de aumento do bem-estar. Não há momento mais adequado que o presente para começar.”

Serviço

Título: Apagando o incêndio
Editora: Todavia
Autores: Ben S. Bernanke, Timothy F. Geithner e Henry M. Paulson Jr.
Páginas: 269
Preço: R$ 62,17 na Amazon

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