Capoeira: da resistência à escravidão ao reconhecimento como patrimônio cultural | Divulgação
Patrícia Nunes – A capoeira, ao longo dos séculos, foi além de uma simples forma de expressão corporal. Representou resistência, identidade e bravura, constituindo uma maneira de manter viva a liberdade cultural de um povo que enfrentou a brutalidade da escravidão.
Originária da vivência histórica dos africanos escravizados e seus descendentes no Brasil, essa prática atravessou gerações, superou perseguições e se consolidou como um dos mais significativos ícones da cultura brasileira.
Recentemente, no Rio de Janeiro, a história da capoeira ganhou um novo marco com a assinatura da Lei Estadual nº 11.347/2026, pelo Governador em exercício Ricardo Couto, que foi publicada no Diário Oficial em 15 de outubro. Essa lei é de autoria do deputado Carlos Minc (PSB).
Com essa nova legislação, são ampliadas as políticas públicas voltadas para a preservação, reconhecimento e valorização da capoeira, ressaltando sua relevância histórica, social e educacional.
Aspectos Principais da Lei
• Modificações legais: A lei traz mudanças nas legislações estaduais anteriores para incluir diretrizes específicas sobre a capoeira.
• Diretrizes e princípios: A nova norma valoriza a cultura afro-brasileira, reconhece os mestres de capoeira como educadores tradicionais e garante a consulta prévia à comunidade envolvida na prática. Além disso, proíbe qualquer forma de discriminação ou preconceito durante as atividades.
Da repressão ao reconhecimento
Durante o período da escravidão, a capoeira funcionava como uma forma de resistência tanto física quanto cultural. Seus ritmos, movimentos e instrumentos ajudaram a preservar as tradições africanas em uma sociedade que tentava obliterar as identidades dos povos escravizados.
Após a abolição da escravatura em 1888, a capoeira continuou sendo alvo de perseguições. Chegou até mesmo a ser criminalizada pelo Código Penal de 1890, refletindo uma sociedade ainda marcada pelo racismo e pela exclusão.
No entanto, com o passar do tempo, os sons dos berimbaus conseguiram se fazer ouvir novamente.
Graças à perseverança de inúmeras gerações de mestres e praticantes, a capoeira transcendeu fronteiras, conquistando reconhecimento internacional e encontrando seu lugar em diversas esferas culturais, esportivas e educacionais.
A capoeira como ferramenta educativa
Atualmente, a disseminação cultural da capoeira possibilita que seus ensinamentos sejam incorporados nas escolas. Essa prática contribui para o desenvolvimento físico das crianças, disciplina, convivência harmoniosa, respeito às diferenças e conhecimento sobre a história afro-brasileira.
A Lei Federal nº 10.639/2003, que estabelece o ensino obrigatório da história e cultura afro-brasileira na educação básica, fundamenta projetos pedagógicos que utilizam a capoeira como um meio educativo eficaz.
Além disso, a nova legislação fluminense estimula os municípios a implementar programas que promovam a valorização da capoeira e fortalece o reconhecimento dos mestres e mestras como transmissores do saber tradicional.
Levar a capoeira às escolas não é apenas ensinar movimentos; é apresentar às crianças uma parte essencial do contexto histórico e cultural do Brasil.
A herança cultural que deve perdurar
A capoeira simboliza como a cultura pode resistir à violência, ao preconceito e ao apagamento histórico.
Valorizar seus mestres, preservar suas tradições e expandir sua presença nos ambientes educacionais é reconhecer uma dívida histórica com as populações negras e garantir que as futuras gerações compreendam a riqueza dessas raízes.
Porque capoeira nunca se limitou apenas à luta ou à dança.
Ela representa uma forma de resistência em tempos onde a liberdade era suprimida.
Hoje em dia, a cada toque do berimbau também se narra uma história de liberdade, dignidade e resistência.
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